Dagoun – o vodum do Chachá

Entre as famílias “brasileiras”, a De Souza é muito provavelmente a única a possuir o seu próprio vodum, criado expressamente para protegê-la. O Dagoun, transformação da palavra “dragão”, é um Dan, ou seja, um píton, um vodum serpente classificado como Tovodoun, um vodum da água. 1 Ele está ligado ao Sakpata (ou Omolu), o vodum da varíola e da terra, do qual ele seria o mensageiro, e a Heviosso (ou Xangô), o vodum do trovão. Dagoun possui seu próprio convento, seus adeptos, suas cerimônias e sua hierarquia de culto. Oito outros voduns lhe são subordinados, o que eleva a nove o número total de voduns sob a autoridade da família De Souza.

Conta-se que, ao chegar a Uidá, Francisco Félix de Souza usava no dedo anelar direito um anel de ouro representando uma serpente com grossas escamas e um olho de diamante. Seus próximos acreditavam que ele devia a sua fortuna a esse fetiche serpente, semelhante ao Dan Huêda,2 representado no seu anel, já que somente uma poderosa serpente poderia proporcionar-lhe tanta riqueza.

O Sr. Prosper de Souza, porta-voz da família De Souza em 1994, quando foi entrevistado, explica que havia muita mortalidade entre as crianças do primeiro Chachá, de modo que ele foi obrigado a adotar um vodum para proteger a sua descendência. Uma terceira versão, também complementar às outras, conta que o rei Guêzo teria dado a seu irmão de sangue, junto com o título de Chachá, dois voduns para proteger Uidá: um foi implantado na entrada da cidade, e o outro na saída. E ainda um terceiro para a sua proteção pessoal, chamado pelos nativos de Dagoun, devido ao famoso anel.3

O fato é que o vodum Dagoun teve sua origem na pessoa mesma de Dom Francisco, e foi cultuado pelos seus escravos sob sua autoridade direta. Atualmente, o culto do Dagoun é mantido por famílias aliadas, mas continua sempre sob a autoridade da família De Souza.

O convento do Dagoun se situa a uma centena de metros de Singbomey, sobre a estrada que vai para a praia, que era o caminho que os cativos tomavam, no tempo de D. Francisco, para embarcar nos navios negreiros. Trata-se de uma pequena concessão, que abriga o templo e a casa do chefe do culto. O nome do vodum está pintado no muro e na entrada, ao lado de uma representação do “Aïdôhoêdo”, o arco-íris sagrado sob a forma de duas serpentes, marca dos cultos Dan.

No pátio, bem diante do templo, encontram-se três árvores, um “akinhon”, um “agnatin” e um “kpatrima”, aos pés das quais vemos o altar destinado aos sacrifícios. Este consiste em três “assens”, objetos de ferro que tem a forma aproximada de um pequeno guarda-chuva e que representam os manes dos ancestrais da casa.4 Ao lado deles vemos a representação das divindades Loko e Hxéli, que protegem a casa, e Gu (ou Ogum), a divindade do ferro e da guerra, protetor dos ferreiros, dos guerreiros e, atualmente, também dos motoristas e assimilados. É neste local que se efetuam as cerimônias destinadas a “dar de comer” às divindades por ocasião dos dias do mercado “Tpkpa”, que acontece a cada cinco dias.

O templo é uma construção de cerca de 5 x 7 metros, pintada de branco e coberta por um telhado de placas onduladas. A fachada, com duas portas e uma janela, está decorada com pinturas representando as serpentes do Aïdohouêdo, um para-sol de Abomé e duas mãos, uma em cada extremidade das serpentes, abaixo das quais está escrito “Chachá” e “Agossu”. Por baixo desta última mão, a direita da entrada, vê-se ainda um desenho de um tamborete sustentado por três macaquinhos.

As duas serpentes, um macho com chifres vermelhos e uma fêmea, estão bebendo água no mesmo pote, depois da sua viagem simbólica pelo céu. O para-sol simboliza o poder do Chachá no antigo reino do Daomé. As duas mãos seriam as do patriarca, sempre pronto a proteger seus filhos. Os três macaquinhos, por sua vez, escondem os olhos, as orelhas e a boca a fim de não verem nem ouvirem no templo aquilo que não se tem o direito de divulgar.

No alto, pegando toda a fachada, está transcrita uma louvação ao Chachá: “Adjido Hossou Kinmandakpa / Agoéé doblahé-doblaé vankolika-kpon Adjanakou klan-klan-ken hoékinmanhouloé / Honanhoun bohôto zan soukpé dokto hôdolankanhouto” que é assim traduzida: “A primeira coisa é para traduzir a sua força, ele é forte, o homem mais forte, é em vão que a hiena olha com raiva para o elefante. O crocodilo não come peixe e não quer fazê-lo. Quando alguém o procura com um problema, ele ajuda. Oh, você que ajuda! Mesmo se você é uma formiga, ele o considera como uma pérola. Ele é o chefe dos ‘ago’ (um animal que vive na água).”  Acerca da parte final da louvação original, que não está transcrita, Martine explica que “o que nós não gostamos mais hoje em dia é a parte que diz ‘é plé vi plé no’”, que quer dizer que “ele comprava a criança e a mãe da criança. Isso diz respeito à escravatura, então nós eliminamos”.

O interior do templo está dividido em dois cômodos, um hall de entrada de cerca de 2,5 metros de profundidade dando acesso ao segundo cômodo que é destinado aos cultos e onde se encontram os altares. As paredes do cômodo da entrada estão decoradas com várias pinturas feitas por Ignace de Souza. Na parede à esquerda vê-se a árvore do Dan, ao lado de um navio que chega a Uidá com Dom Francisco remando e a serpente que sai de uma espécie de casa de cupim. Isto quer dizer que, segundo a mitologia do convento, o vodum foi efetivamente trazido por D. Francisco do Brasil, e não doado pelo rei do Daomé. No chão, diante desta pintura, um pequeno altar abriga oito “assens” correspondentes aos antigos chefes de culto. Na parede da direita, em volta de uma pequena janela, encontra-se a pintura de um elefante, símbolo de Chachá Adjanakou, ao lado da árvore do pátio de dança (“sato”). Por cima da porta que dá acesso ao cômodo onde fica o altar-mor, vê-se escrito, à esquerda: “Dan Dagoun Aïdohoedo”, que é o nome do vodum, do arco-íris e das serpentes que o representam. Um desenho destas serpentes envolve a porta.

O segundo cômodo abriga o altar do Dagoun e os dos outros voduns associados ao culto. O altar do Dagoun consiste em um leito de terra que constitui a base sobre a qual estão instalados os objetos que representam as divindades e outros que estão de qualquer forma ligados ao culto.

Encontram-se ainda ali dois outros potes, um macho e outro fêmea, chamados “nazen”, que são utilizados para buscar água nas cerimônias anuais do vodum e que estão ao lado dos altares dedicados a Sakpata, Gu, Lissa, Hoxo, Heviosso e Tohossou.

Segundo o Dah Dagoun-non, como é chamado o chefe do culto, o Dagoun não é um vodum violento, e protege principalmente as crianças. Ele não é exclusivo dos membros da família De Souza, mas “o vodum – ele faz questão de precisar – continua a cuidar, a proteger o Chachá até os nossos dias, e todos os seus descendentes o sabem e estão assim protegidos.” Ele conta também com numerosos adeptos entre os nativos e as outras famílias agudás.

As sacerdotisas e sacerdotes dedicados a este vodum sofrem restrições quanto a comer caranguejo, ostras, carne de antílope e de porco. As mulheres usam um colar de contas azuis. Aquele que é possuído pelo Dagoun, por ocasião das cerimônias, dança e se desloca imitando os movimentos de uma serpente, como se passa com todos os demais Dan.

O culto dedicado ao Dagoun está sob a autoridade espiritual do Daagbo Hounon, chefe supremo dos voduns desde a conquista do Reino Huêda por Abomé. Senhor do mar, ele se situa na hierarquia huêda imediatamente depois do Daagbe-non, senhor do Dangbé (o píton das elites, enquanto o Dan é o do povo), mas acima do Houéssi-non, o senhor de Houéssi, uma espécie de Sakpata, e do Zo-non, senhor da chama. Os conquistadores daomeanos, porém, modificaram a ordem hierárquica huêda e colocaram o Hounon no topo, com a delegação real de Abomé sobre todos os outros. Isto reflete, no plano religioso, a prioridade da política daomeana de abrir o reino ao comércio com os europeus, que se fazia evidentemente pelo mar.

O Dagoun-non, entretanto, não tem um lugar de honra entre o séquito do Daagbo Hounon, porque seu vodum é muito recente em relação à tradição religiosa de Uidá.5 Compete ao Daagbo Hounon autorizar a celebração da cerimônia anual do templo Dagoun, chamada “Xwétanou”, e é ele em pessoa que preside o início e o encerramento dos trabalhos. Esta cerimônia reúne os oito outros voduns sob a influência da família De Souza. Segundo o Sr. Prosper de Souza,6 os voduns “sob sua autoridade” são: Ganlo, Basan, Kpota I, Kpota II, Gbéhouin e Wèkè, que são todos serpentes; e ainda Gbeulami e Kirminon, que representam Sakpata. Também são considerados como ligados à família De Souza há mais de 50 anos os voduns Ahoho, Dan Dossou, Aglanma, Aloufan e Nan, todos situados no Quartier Brésil, e ainda Tokpon, instalado em Zomaí.7

Por outro lado, o Daagbo Hounon não tem participação alguma no que concerne a designação do chefe do culto ao Dagoun. Este é escolhido exclusivamente pelos sábios da família De Souza, segundo o costume. O chefe em 1996, quando foi efetuada a pesquisa, era o Dah Dagoun Nonchéokon, nascido em 1968. Ele foi entronizado em 1987 por Prosper de Souza, preenchendo uma lacuna de vinte anos, período em que o convento foi mantido por adeptos que não possuíam o status de chefe.


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  • Daagbo Hounon, chefe supremo do culto vodu desde a conquista do reino huêda por Abomé na sua residência no bairro de Sogbadji. Compete ao Daagbo Hounon autorizar a celebração da cerimônia anual do templo Dagoun, chamada “Xwétanou”, e é ele em pessoa que preside o início e o encerramento dos trabalhos - 5 de setembro de 1994 - Uidá, Benim

    Daagbo Hounon, chefe supremo do culto vodu desde a conquista do reino huêda por Abomé na sua residência no bairro de Sogbadji. Compete ao Daagbo Hounon autorizar a celebração da cerimônia anual do templo Dagoun, chamada “Xwétanou”, e é ele em pessoa que preside o início e o encerramento dos trabalhos - 5 de setembro de 1994 - Uidá, Benim

  • No pátio do convento, bem diante do templo, encontram-se três árvores, um “akinhon”, um “agnatin” e um “kpatrima”, aos pés das quais está o altar destinado aos sacrifícios - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

    No pátio do convento, bem diante do templo, encontram-se três árvores, um “akinhon”, um “agnatin” e um “kpatrima”, aos pés das quais está o altar destinado aos sacrifícios - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

  • No pátio do convento Dagoun, bem diante do templo, encontram-se três árvores, um “akinhon”, um “agnatin” e um “kpatrima”, aos pés das quais está o altar destinado aos sacrifícios - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

    No pátio do convento Dagoun, bem diante do templo, encontram-se três árvores, um “akinhon”, um “agnatin” e um “kpatrima”, aos pés das quais está o altar destinado aos sacrifícios - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

  • Pátio do convento Dagoun - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

    Pátio do convento Dagoun - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

  • O convento do Dagoun, próximo à Singbomey, é uma pequena concessão que abriga o templo e a casa do chefe do culto. O nome do vodum está pintado no muro e na entrada, ao lado de uma representação do “Aïdôhoêdo”, o arco-íris sagrado sob a forma de duas serpentes, marca dos cultos Dan - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

    O convento do Dagoun, próximo à Singbomey, é uma pequena concessão que abriga o templo e a casa do chefe do culto. O nome do vodum está pintado no muro e na entrada, ao lado de uma representação do “Aïdôhoêdo”, o arco-íris sagrado sob a forma de duas serpentes, marca dos cultos Dan - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

  • Pátio do convento Dagoun - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim

    Pátio do convento Dagoun - 29 de janeiro de 1996 - Uidá, Benim