Celebração de N. S. do Bonfim – Desfile

O costume de celebrar o Bonfim atravessou, então, o Atlântico com os africanos de retorno e se revelou um dos instrumentos mais eficazes na sua estratégia de construção da nova identidade social na África. Para eles que voltavam, celebrar o Bonfim significava festejar ao mesmo tempo as lembranças da Bahia e o retorno, já que interpretavam a palavra Bonfim como um bom final de vida na África. Ademais, esta festa proporcionava aos retornados a oportunidade de afirmar ao mesmo tempo a sua condição de católicos e a especificidade de sua cultura “brasileira”. Isto é bastaste visível no fato de que eles procuravam e ainda procuram dar à celebração africana o mesmo espírito baiano, ou seja, fazer da celebração do santo principalmente uma oportunidade para se encontrar e se divertir. Celebra-se a missa, com certeza mas, antes de mais nada, há o desfile, dança-se o samba, canta-se canções em português, come-se feijoada e outros pratos brasileiros e, sobretudo, há o folguedo da burrinha.

É assim que a celebração do Bonfim significou para os primeiros agudás uma base a partir da qual eles conseguiram explicitar, publicamente, os traços culturais que marcavam sua nova identidade. Antes mesmo de ser uma festa católica, a comemoração do Bonfim era percebida como uma festa “brasileira” por excelência. Esse é o entendimento que a hierarquia da Igreja faz da festa, tanto que o atual pároco da Catedral de Porto Novo, onde se celebra o Bonfim desde a construção da própria igreja, admite que “os ‘afro-brasileiros’ festejam isso, mas não é uma festa religiosa”.1 O que não impede que, enquanto festa “brasileira”, a celebração do Bonfim tinha – e tem até hoje – a dupla vantagem de fortificar o grupo tanto nas suas relações internas quanto na sua interação com o resto da sociedade.

Atualmente, na maioria das cidades do sul do Benim, a celebração do Bonfim está restrita a uma missa, seguida de um simples almoço de família, não parecendo reunir publicamente toda a comunidade agudá. No entanto, em Porto Novo, onde a concentração de “brasileiros” foi mais importante ao longo dos séculos XIX e XX, ela conserva ainda a mesma estrutura de antigamente. Por outro lado, a comunidade “brasileira” de Porto Novo não celebra mais o Bonfim de forma unitária, encontrando-se dividida em duas associações.

A tradição aponta Simplice Gonzalo, antigo escravo retornado do Brasil, como o introdutor da festa do Bonfim e da Burrinha em Porto Novo.2 Ele fundou a Irmandade Brasileira Bom Jesus do Bonfim de Porto Novo 3, que reunia todos os “brasileiros” da cidade. Os muçulmanos, sem assistirem à missa, festejavam também o Bonfim junto com os católicos. Era a festa de todos os “brasileiros”, como se afirma unanimemente em Porto Novo. A Irmandade estava ainda muita ativa nos anos 60, quando era presidida por Casimir d’Almeida, neto de Joaquim d’Almeida, de Aguê.4 Papá Casimir é sempre lembrado como o maior incentivador da festa, ao lado de Marcelino d’Almeida, na casa de quem se faziam os ensaios, e de Edouard Amaral, famoso como músico e como fabricante das fantasias e dos bonecos da Burrinha.5

Com o desaparecimento sucessivo destes três incentivadores, a Irmandade ficou vários anos sem presidente, até que a viúva de Casimir d’Almeida convidou o seu sobrinho, Karin-Urbain da Silva, a assumir direção do grupo. O Sr. Da Silva, neto de Ignacio Paraíso, é empresário e sem dúvida o mais rico agudá da cidade. Embora muçulmano, ele sempre foi fiel à tradição, apoiando a celebração do Bonfim e o grupo da Burrinha.

Os tempos tinham mudado e não era mais o caso de se organizar uma confraria segundo o antigo modelo, de modo que o Sr. Da Silva tornou-se o primeiro presidente da nova “Association des Ressortissants Brésiliens – Associação de Descendentes de Brasileiros”.6 A condição étnica, portanto, se sobrepõe nitidamente à condição religiosa.

Na qualidade de presidente da nova associação, o Sr. Da Silva sustenta financeiramente um grupo de Burrinha e recebe as delegações de brasileiros que transitam pelo Benim. Muçulmanos e católicos festejam o Bonfim juntos, mas, sob a aparente unidade, os católicos reclamam que a proposta de confraria, no sentido de ajuda mútua e suporte das relações no seio do grupo, tinha ficado comprometida. Os conflitos se sucederam e os católicos, com os três filhos de Edouard Amaral à frente, decidiram criar, em 1990, a sua própria associação, que eles chamam de “Association des Ressortissants Brésiliens – Bourian”.7

De acordo com as observações feitas em Porto Novo desde a década de 1990 até 2010, a festa compreende três momentos distintos, e começa com um desfile na noite de sábado, véspera da missa. Neste desfile os participantes usam algumas fantasias da Burrinha, e, ao som de uma fanfarra, percorrem as principais ruas da cidade para anunciar a festa à população em geral, mas parando nas casas dos “brasileiros” para convidá-los a participar. O segundo momento é o da grande missa solene, quando os membros da Irmandade se apresentam a caráter, com o estandarte. Vestidos de branco – como se faz na Bahia, em homenagem a Oxalá – levam no peito uma faixa verde e amarela com a inscrição “N. S. do Bonfim”. Um desfile de menores proporções, sem fanfarra nem bandeiras, marca a saída da igreja. O terceiro momento, depois do desfile, é dedicado à confraternização e ao divertimento. Começa com um piquenique onde se pode saborear, ao lado da cozinha beninense, pratos brasileiros como a feijoadá e o kousidou. Lá pelo fim da tarde chega o grande momento da apresentação da burrinha, que atrai bastante público entre os habitantes da cidade. A festa termina com um grande baile a céu aberto.

Esta é a estrutura tradicional da festa, estritamente mantida pela Association des Ressortissants Brésiliens – Bourian por ocasião das celebrações a que tive oportunidade de assistir, em 1995 e 1996. Na primeira, a missa teve lugar em 22 de janeiro. No sábado dia 21, por volta das 19 horas, os participantes se reuniram na casa da família Amaral, onde funciona também a sede da associação e são guardados os instrumentos de música e as fantasias. Na calçada em frente à casa havia uma grande faixa com o nome da entidade, ladeada por duas bandeiras brasileiras de tamanho oficial. Na verdade, estas só entraram para a tradição do desfile a partir de 1992, copiadas de uma revista. E, desde então, estão incorporadas ao desfile para – segundo Jean Amaral – “mostrar a nossa condição de brasileiros”. Os três irmãos Amaral – Jean, Adolphe e Auguste – vestidos com o mesmo figurino, organizam o desfile. Cerca de 50 lanternas com velas são distribuídas entre os participantes.

A organização do desfile e o clima geral lembram certos momentos do carnaval brasileiro, com a diferença que lá não há consumo de bebidas alcoólicas. A fanfarra toca com todas as forças, os participantes com lanternas fazem filas dos dois lados da rua enquanto os outros participantes dançam no meio. As duas bandeiras brasileiras abrem o desfile, nas mãos das jovens Antoinette Campos e Eveline Mariano, as principais cantoras do grupo. Entre as duas desfila uma moça com uma bela fantasia cintilante com duas grandes asas, como um destaque de escola de samba dos anos cinqüenta. Ioiô, Iaiá, o leão, Mammywata, Mitterand e a perereca dançam com os participantes, estimulados pela fanfarra que fecha o cortejo. Um dos irmãos Amaral marca o ritmo com um apito, enquanto os outros dois, exatamente como nas pequenas escolas de samba, percorrem o bloco de uma ponta à outra, para não deixar atravessar a marcha, que cantam a plenos pulmões, em bom português:

A sociedade brasileira
Está na rua
Venha ver, venha gostar
O brinquedo
É delicado
Para quem, para quem gosta de ver

Com uma ênfase toda especial na palavra brasileira. À testa do cortejo, metido em uma camisa de todas as cores, calça larga vermelha e sapatos brancos, braços bem abertos, Jean Amaral saúda o público como um verdadeiro patrono de escola de samba. 

Entre as canções mais cantadas, além da citada acima, está uma outra, composta pela Sra. Amégan em 1992 em nagô, que é a língua mais falada entre os agudás, e entremeada por algumas palavras em português: “Awa yo lodjo / Awa kpeni oke yo / Awa yo lodjo onio / Odjo odu adjo Bonfini / Gbogbo agouda edjeda re wa ba yo (bis) / Titio, titia / Gbogbo wehi we edja wa de yo / Awa yo lodjo oni / Odjo odu Bonfini / Gbogbo agouda edjeda re xa ba yo.” O que quer dizer, traduzido livremente pela autora: “Estamos festejando, estamos contentes, vocês todos, agudás, venham festejar conosco para estarem contentes também, venham, é a festa do Bonfim, a festa dos agudás, venham festejar conosco, titio, titia, os amigos, todo mundo, venham festejar conosco, é a festa do Bonfim, é a festa dos agudás.”

No ano seguinte, em 1996, o desfile na véspera da missa, em 20 de janeiro, apresentou a mesma configuração do precedente, salvo pelo fato de ter durado o dobro do tempo. Das 20:30hs às três horas da madrugada o grupo visitou as famílias agudás e outras simpatizantes. Segundo os organizadores, a escolha das casas a serem visitadas levou em consideração de uma parte a localização dos bairros que eles podiam percorrer e de outra a ligação das famílias com a tradição agudá. Outras casas foram visitadas por dever de cortesia, como foi o caso do general comandante da Polícia Nacional. Pode-se acrescentar que a maioria das famílias visitadas parecia de boa condição social e abastadas; sendo que foram visitadas também outras mais humildes, mas que representam marcos importantes da tradição da festa.

Quando o grupo se concentra diante de uma casa, apesar da hora tardia, os moradores saem à rua para dançar e confraternizar. Algumas possuem jardim ou pátio interno, e aí todos são convidados a entrar, e depois de muita dança os donos da casa oferecem refrigerantes e água fresca, bem como uma contribuição em dinheiro para a associação.

De volta à casa da família Amaral, por volta das 3hs da madrugada, a festa continuou regada a refrigerantes e cervejas. Falando em nagô, Jean Amaral anuncia ao grupo o montante arrecadado no desfile, de acordo com a caderneta da tesoureira: 62.200 FCFA. Neste momento alguém avisa que eles esqueceram a casa da Sra. Florentine Campos, que os esperava com um grande jantar, e lá foram todos, cantando e dançando.


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  • Desfile na véspera da missa do Bonfim - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

  • Desfile na véspera da missa do Bonfim. No primeiro plano, a sra. Amégan, née Campos, e as porta-bandeiras Evélyne Mariano, a esquerda, e Antoinette Campos. Ao fundo, com um pandeiro, Jean Amaral - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim. No primeiro plano, a sra. Amégan, née Campos, e as porta-bandeiras Evélyne Mariano, a esquerda, e Antoinette Campos. Ao fundo, com um pandeiro, Jean Amaral - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

  • Desfile na véspera da missa do Bonfim - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

  • Desfile na véspera da missa do Bonfim. No primeiro plano, a Sra. Amégan, née Campos, vestida à "brasileira" - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim. No primeiro plano, a Sra. Amégan, née Campos, vestida à "brasileira" - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

  • Desfile na véspera da missa do Bonfim, com os braços erguidos, Jean Amaral - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim, com os braços erguidos, Jean Amaral - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

  • Desfile na véspera da missa do Bonfim. Em destaque, a porta-bandeira Evélyne Mariano - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

    Desfile na véspera da missa do Bonfim. Em destaque, a porta-bandeira Evélyne Mariano - 20 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim