Chachá VIII – Cerimônia dos atributos em Abomé

Em 16 de fevereiro de 1996, teve lugar a cerimônia de outorga dos atributos de poder da corte de Abomé ao Chachá VIII pelo rei Agoli-Agbo Dedjaragni do Daomé.

O Chachá apresentou-se com uma comitiva de quase cem pessoas impecavelmente vestida à “brasileira”. Cantando as louvações do Chachá e as canções da burrinha e dançando o “samba”, a delegação de Uidá não perdeu a oportunidade de bem evidenciar sua condição étnica. O rei, por seu lado, aproveitou também a oportunidade para demonstrar, pela recepção dada ao Chachá, que, mais além de uma ordem social estabelecida pela colonização, continua a existir no país uma cultura daomeana vigorosa, da qual ele e sua corte são os maiores avalistas.

A cerimônia foi então um verdadeiro diálogo inter-étnico, que pôs em destaque por contraste, e não por oposição, as duas culturas.

Uma vez mais a ampla cobertura da televisão pública, o único canal em operação na época, deu uma dimensão nacional ao acontecimento, o que legitimou de certa maneira esta aliança simbólica entre a cultura tradicional e uma cultura importada, porém bem integrada na história do país. A equipe de televisão atrasou uma hora, o que obrigou o Chachá e sua comitiva a esperarem por mais de uma hora a 300 metros do palácio para fazer sua entrada devidamente televisionada. Assim, diante das câmeras, o luxuoso automóvel do Chachá se pôs em movimento lentamente, escoltado pelas tassinons e guarnecido pelo grande pára-sol, que era levado por alguém que vinha a pé atrás do carro. Duas alas de mulheres em vestido longo e chapéu, seguidas pelos notáveis, abriam o cortejo, cantando as louvações do Chachá e as canções da burrinha. A poucos metros do palácio, o Chachá desceu do automóvel e se dirigiu à entrada reservada ao rei Glélé, sempre acompanhado pelo seu séquito, que recitava as louvações para anunciar a sua chegada.

O Chachá foi acolhido, à entrada do palácio, pelo príncipe Dah Melè, chefe da linhagem do rei Glelé, que estava acompanhado por três ministros de Agoli-Agbo, o Migan, o Mehou e o Yevogan. Os Palácios Reais de Abomé constituem um conjunto de vários palácios construídos por sucessivos reis, cada um possuindo a sua própria porta de entrada. O Museu Histórico de Abomé está instalado principalmente no Palácio de Guêzo, que se chama Singbodji precisamente por causa do sobrado (“singbo”) que Francisco Félix de Souza mandou construir para o seu amigo.

O Chachá e sua esposa foram instalados na parte coberta do pátio do Rei Glelè, chamada “Ajalala”, na qual se encontrava já uma centena de dignitários da corte. Sentaram-se em duas poltronas, ao lado de uma espécie de leito arranjado para o rei. Este não podia na verdade utilizar o trono por causa das cerimônias anuais em memória dos antigos reis, que se realizavam naqueles dias. Durante este período, chamado “Djahouhou”, todos os reis passados são considerados como estando presentes no palácio através de mulheres que os encarnam. Desta feita o trono do rei se encontra simbolicamente ocupado pelo seu real proprietário, o rei Houégbadja, fundador da dinastia.

A chegada do rei foi precedida, conforme o costume, pelos griôs que recitavam as louvações reais tocando o “gankpanvi”, os gongos gêmeos, semelhantes aos nossos agogôs, de uso exclusivo do rei. Atrás destes griôs vinham os ministros, dispostos em duas alas, e depois, finalmente, o rei Agoli-Agbo Dedjaragni e suas esposas. Ele cumprimentou afavelmente o Chachá com um aperto de mão, e sentou-se no lugar que lhe estava destinado.

A parte oficial da cerimônia começou pelas saudações. A tudo o que é dito, as esposas do rei respondem com a fórmula consagrada “nós te respondemos”, já que o rei em pessoa não responde. Depois dos griôs terem saudado o rei, foi a vez dos ministros que, após a saudação, se sentaram no chão diante do rei e do Chachá, que conversavam muito à vontade.

Logo após as saudações, o rei expressou ao Chachá sua satisfação em recebê-lo. Ele falou e a seguir o decano dos Migans, Gnigla, repetiu em voz bem alta o seu discurso. Para escutá-lo, o Chachá colocou-se diante do rei, acompanhado por seus notáveis e suas tassinons, que cantavam as suas louvações. Depois desta mensagem de boas vindas, os músicos do rei tocaram peças de música “Agbadja” e “Hougan”, e as mulheres dançaram. Os músicos da burrinha colaram moedas sobre a testa das dançarinas como uma forma de aplauso.

O rei pediu então ao mais idoso dos descendentes dos Adjaho, os ministros de culto, para fazer a entrega solene dos atributos de poder que marcam o lugar e a função do Chachá na corte de Abomé. O Adjaho confiou, então, ao bisneto de Francisco Félix de Souza uma bengala esculpida, em cujo punho se vê um elefante embaixo do qual se deita um antílope, o que significa que o animal que segue o elefante não é molhado pelo orvalho. Em outras palavras, o Chachá é o elefante que protege todos aqueles que o seguem. A seguir, procedeu à entrega do grande pára-sol, símbolo de nobreza e de autoridade.

Isso feito, as tassinons de Uidá entoaram as louvações e o Chachá, sempre de pé diante do rei e de seus ministros, sacou um papel e leu o seu discurso em francês. O rei respondeu em fom, por intermédio do Migan Gnigla, e reafirmou a retomada da amizade e sua contrapartida, a proteção ao Chachá.

As mulheres da comitiva do Chachá fizeram, então, uma demonstração de “samba”, acompanhados pelos músicos da burrinha. Logo são substituídas pelas da corte que, acompanhadas por seus músicos apresentam, por sua vez, as danças tradicionais fom, e assim por diante. As expressões corporais traduzidas nas duas danças, a “brasileira” e a fom atestam bem a diferença entre as duas culturas, ainda mais dos que as músicas. Esta diversidade torna-se ainda mais evidente pelas vestes das damas “brasileiras.”

Como exige a tradição, o Chachá procedeu a seguir à entrega dos presentes. Ao rei ele deu dois pacotes bem embalados, cujo conteúdo não foi revelado, sete garrafas de bebida e 20.000 FCFA; aos griôs, uma soma de 2.000 FCFA; e aos músicos seis garrafas de bebida e 10.000 FCFA.

Por fim, à frente de uma delegação reduzida da família real, o rei Agoli-Agbo conduz o Chachá e a família De Souza até a tumba de Guêzo. Diante deles vão dois griôs, que entoam as louvações relativas aos primeiros feitos guerreiros do reino do Daomé. Na entrada do pátio onde está localizado o túmulo, o rei e o Chachá se descalçaram e o rei tirou o seu grande “pagne” dos ombros para enrolá-lo na cintura.

Às 12:30hs, as personalidades escolhidas se reuniram no “singbo” do rei Guêzo para o coquetel oferecido à delegação de Uidá. O rei e o Chachá fizeram um brinde. O rei tomou um refrigerante muito apreciado no país, chamado “Fizzi Pamplemousse”, tendo jogado um pouco no chão várias vezes.

Em baixo, na entrada do palácio, o jornalista da televisão entrevistou o rei, que declarou: “Sim, eles vieram aqui mostrar aquele que seria entronizado. Nós ficamos felizes. Agora ele vem nos visitar e é nossa a alegria e isto nos honra. Será um reinado pacífico para ele. Tudo será próspero para a família. Os comércios vão prosperar, os homens terão boas mulheres, os desempregados encontrarão empregos permanentes. Eles retornarão em paz, os reis os acompanharão.” Em seguida foi a vez do Chachá, que declarou solenemente, em francês: “Chachá está muito feliz por ter vindo a Abomé. Ele saudou o rei e todos os chefes pela amizade que eles cultivaram. Toda a família De Souza os saúda. Haverá paz em todo lado aqui e a amizade será durável.”

O rei ainda esperou um pouco o Chachá na porta do palácio, enquanto ele se fazia fotografar com toda a família diante do “singbo”, e depois o acompanhou, fraternalmente, até o automóvel, em sinal de consideração e de amizade.


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  • O Chachá VIII chega ao Palácio Real de Singbodji para a cerimônia de outorga dos atributos de poder da corte de Abomé acompanhado das tassinons que cantam louvações em sua homenagem - 16 de fevereiro de 1996 - Abomé, Benim

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  • As tassinons cantam as louvações para o Chachá VIII - 16 de fevereiro de 1996 - Abomé, Benim

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  • Ministros da corte de Abomé se preparam para receber o Chachá VIII - 16 de fevereiro de 1996 - Abomé, Benim

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  • Chachá VIII sob o para-sol, símbolo de nobreza e autoridade - 16 de fevereiro de 1996 - Abomé, Benim

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