Celebração de N. S. do Bonfim – Missa

No dia seguinte do desfile, domingo do Bonfim, tem lugar a missa solene. Em 1995, em Porto Novo, conforme a tradição, a missa foi realizada na Catedral de Notre Dame des Apôtres, às 10 horas. Um grupo de senhoras, lideradas pelas irmãs Martins, bisnetas do Signor Domingos José Martins, recebia os demais membros da comunidade com um sonoro “bom dia”. Estavam todas vestidas de branco, à europeia, com a faixa verde e amarela sobre o peito. Trata-se de um ritual tradicional de cortesia, onde quem porta a faixa representa a Irmandade e recebe, então, com muito orgulho os demais membros da comunidade.

Cerca de 300 pessoas assistiram à missa, a maioria, porém, sem estar particularmente interessada na celebração do Bonfim. O estandarte da Irmandade Brasileira Bom Jesus do Bonfim de Porto Novo, no entanto, estava bem visível à esquerda do altar mor. Confeccionado há mais de um século, segundo Jean Amaral, que o conserva na família, o estandarte consiste em uma peça de veludo verde escuro de cerca de 1 x 1,5m, com o nome da Irmandade bordado em ouro, algumas cruzes e, ao centro, uma imagem colorida de Jesus Cristo, com uma cercadura também bordada em ouro, sendo o conjunto sustentado por um mastro central.

Os membros da Irmandade ocupam os primeiros bancos diante do altar, bem em evidência graças às suas roupas brancas. Durante a missa foram efetuadas as leituras da Bíblia relativas àquele domingo. Tudo foi feito, então, segundo o calendário católico normal. Embora ele não tenha em momento algum sequer pronunciado o nome de N. S. do Bonfim, todos os membros da Irmandade comungaram solenemente em primeiro lugar, seguidos dos demais agudás. Ao final do serviço religioso, o padre e os membros da Irmandade saíram da igreja em procissão no terreno da Catedral.

A seguir, os principais membros da Irmandade saíram à rua cantando de pandeiro na mão, em direção ao bairro Deguè Komey, para em grupo visitarem a “Velha” Gonzalo, neta de Simplice Gonzalo, o introdutor da festa do Bonfim em Porto Novo.

Em 1996, entretanto, a disputa entre os dois grupos conseguiu alterar efetivamente a tradição da festa, transferindo a missa da Irmandade da Catedral, onde ela vinha sendo celebrada desde sempre, para a nova Igreja de São Francisco Xavier, do outro lado do bairro de Oganlá.  Aconteceu que neste ano os partidários de Karin da Silva foram os primeiros a encomendar a missa do Bonfim na catedral, reservando justamente o terceiro domingo. Os membros da Irmandade perceberam este ato como uma tentativa por parte do grupo adversário de se apropriar simbolicamente da celebração do Bonfim sem acordo prévio e, então, resolveram celebrar o Bonfim em outra igreja.

Desta feita, no domingo 21 de janeiro, às 10 horas, foi então celebrada na catedral de Porto Novo a missa dos partidários de Karin da Silva, um grupo bastante restrito. Ninguém portava a faixa da Irmandade e não se via o estandarte, de modo que a missa não apresentou marca alguma da celebração do Bonfim. Uma visita de cortesia ao Sr. Da Silva estava prevista para depois da missa, mas ela foi desmarcada, segundo informaram, em função do jejum do Ramadã a que se submetia o cônsul.

Já a missa da Igreja de São Francisco Xavier começou às 11 horas. A igreja, uma enorme construção moderna capaz de abrigar mais de mil pessoas, estava completamente tomada pelos fiéis. O estandarte da Irmandade Brasileira Bom Jesus do Bonfim de Porto Novo ocupava o lado direito do altar mor, diante do qual tinham se instalado os agudás, vestidos de branco com a faixa verde e amarela. A maioria dos fiéis, entretanto, não sabia exatamente do que se tratava e parecia rezar para São Cristóvão, que era o santo celebrado naquele domingo.

Durante o serviço religioso o padre não fez alusão alguma a N. S. do Bonfim, mas aceitou, com uma expressão de viva simpatia, a oferenda de frutas que lhe foi feita solenemente pelos membros da Irmandade. A volta à casa da família Amaral se deu sob a forma de um animado desfile pelas ruas apinhadas de domingo, pontuado por canções que fazem alusão à condição étnica dos agudás.

O grande momento de confraternização para os agudás que celebram o Bonfim é o piquenique depois da missa. Nos dois anos em que tive a oportunidade de participar, esse encontro aconteceu no terreno da Escola Pública Central, no bairro de Oganlá, à sombra de mangueiras e de um sapotizeiro centenários.

Perto de uma centena de pessoas se reuniram para passar a tarde juntas e compartilhar uma refeição “brasileira”. A feijoadá e o kousidou lá estavam lado a lado, o acaçá beninense, salada, peixe e frango acompanhados dos suculentos molhos africanos. Ao contrário do que vemos em refeições tipicamente africanas, em que os pratos são concebidos para serem comidos com as mãos, no piquenique o uso de talheres é a regra. O movimento é grande: há quem venha apenas saudar os amigos e esperar a hora da Burrinha, os jovens fazem grupos a parte e partem, as crianças brincam e correm o tempo todo umas atrás das outras, enfim, é bem o piquenique onde todo mundo se encontra e se diverte.

Ali estavam as famílias Mariano, Do Rego, Campos, Carlos, Martins, Amaral, Santos, D’Almeida, Masilla, Domingos, Bento, Marcos, Lopez, Moreira, Sabino, Gomez e Paraíso. Estes últimos constituem certamente a mais importante família agudá de confissão muçulmana na cidade, mas possui igualmente um ramo católico, o que faz com que finalmente todos se encontrem em torno de uma boa feijoada do Bonfim, para esperar a apresentação da burrinha.

Uma pessoa roubou a festa no piquenique de 1995: a Sra. Augustinha Abile, nascida em 1916, e apresentada como a memória viva das canções brasileiras. Bastante vigorosa para sua idade, Dona Augustinha cantou em português, com um sotaque encantador, todas as canções conhecidas e acrescentou uma outra que sem dúvida só é ainda lembrada por ela:

“Quando a guerra
estava forte
Quem nela estava
Nada aconteceu
Depois da guerra acabada
Quem nós esperava
Que faleceu” (sic)

Antiga canção portuguesa, alusiva a velhas guerras ibéricas, que teria transitado pelo Brasil, ou talvez mesmo uma canção brasileira relativa à guerra do Paraguai há século e meio, ou a outras guerras internas, é um canto de melodia extremamente triste, que não serve para dançar. Esperamos muito tempo, e só depois do sol se pôr é que começou a Burrinha. Foi quando dona Augustinha, embora cansada, fez questão de vir se despedir de mim: “já vou”, disse-me ela em português claro e correto, “boa noite”.


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  • A sra. Martins, bisneta de Domingos José Martins, recepciona os agudás na missa solene de celebração do N.S. do Bonfim na Catedral de Porto Novo - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

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  • Após a missa, os membros da comunidade agudá saem em procissão da igreja - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

    Após a missa, os membros da comunidade agudá saem em procissão da igreja - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

  • Auguste Amaral e a Sra. Domingos, então presidente da Associação des Ressortissants Brésiliens – Bourian - 21 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

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  • Missa solene de celebração de N. S. do Bonfim na igreja de São Francisco Xavier. Nos primeiros bancos, os membros da Irmandade, uns 30 homens e mulheres vestidos de branco com a faixa do Bonfim - 21 de janeiro de 1996 - Porto Novo, Benim

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  • Membros da irmandade com estandarte da "Irmandade Brasileira de Bom Jesus do Bonfim de Porto Novo" em frente da Catedral de Porto Novo - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

    Membros da irmandade com estandarte da "Irmandade Brasileira de Bom Jesus do Bonfim de Porto Novo" em frente da Catedral de Porto Novo - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

  • Detalhe do estandarte da Irmandade Brasileira de Nosso Senhor do Bonfim - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim

    Detalhe do estandarte da Irmandade Brasileira de Nosso Senhor do Bonfim - 22 de janeiro de 1995 - Porto Novo, Benim